domingo, maio 17, 2009

Quarto do Suicida


Vocês devem achar, sem dúvida, que o quarto esteve vazio. Mas lá havia três cadeiras de encosto firmes. Uma boa lâmpada para afastar a escuridão. Uma mesa, sobre a mesa uma carteira, jornais. Buda sereno, Jesus doloroso, sete elefantes para boa sorte, e na gaveta — um caderno. Vocês acham que nele não estavam nossos endereços?Acham que faltavam livros, quadros ou discos? Mas da parede sorria Saskia com sua flor cordial, Alegria, a faísca dos deuses, a corneta consolatória nas mãos negras. Na estante, Ulisses repousando depois dos esforços do Canto Cinco. Os moralistas, seus nomes em letras douradas nas lindas lombadas de couro. Os políticos ao lado, muito retos. E não era sem saída este quarto, ao menos pela porta, nem sem vista, ao menos pela janela. Binóculos de longo alcance no parapeito. Uma mosca zumbindo — ou seja, ainda viva. Acham então que talvez uma carta explicava algo. Mas se eu disser que não havia carta nenhuma —éramos tantos, os amigos, e todos coubemosdentro de um envelope vazio encostado num copo.

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Filme na madrugada. Disco velho. Livro empoeirado. Caixa fechada. Coração trancado. Monossilabo. Plural. Só. Viajante . Caseiro.
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